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As muitas faces do Círio

O Círio de Nazaré é festa de muitas feições

Iniciada com uma simples procissão religiosa em setembro de 1793 pelas ruas do centro de Belém, quando ainda saia do Palácio Lauro Sodré, o Círio de Nossa Senhora de Nazaré se tornou, hoje, uma festa com múltiplas faces que podem ser observados desde a forma de pagar as promessas até a utilização da festa em anúncios de empresas privadas para vender seus produtos. Este aspecto diverso da festa, segundo o professor e pesquisador do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos – Naea Silvio Lima Figueiredo, ocorre por que o Círio ultrapassa o âmbito puramente religioso.“O Círio tem o aspecto da festa religiosa sagrada e tem o aspecto da festa cultural, e por isso que a sua importância se renova cada ano, por que as expressões culturais ganham as ruas, como o Auto do Círio, o Arraial do Pavulagem, Festa da Chiquita, outras produções culturais nas ares das artes plásticas, todas estas coisas, transformam o evento além de uma festa religiosa, uma festa cultural de grande importância,” explica.

Para o professor, aliás, um grande aspecto desta dimensão cultural que a festa tem é justamente o almoço do Círio. É neste momento que as famílias se confraternizam, recebem amigos e parentes que moram fora do estado, e provam da culinária regional. “Embora seja um evento que aconteça no âmbito privado, o almoço do Círio é um momento em que as pessoas se encontram, e a própria elaboração das comidas como a maniçoba e o pato no tucupi, com o uso dos ingredientes regionais dão este caráter de celebração cultural.”

A corda -No entanto, por conta de seu caráter religioso e cultural, o Círio de Nazaré não está imune a algumas tensões. Durante a procissão de 1855, por exemplo, quando a berlinda ficou atolada por conta de uma grande chuva, a Diretoria da Festa teve a ideia de arranjar uma grande corda, para que os fiéis puxassem a berlinda e se tornou, a partir daí, uma tradição popular. No entanto, durante o Círio de 1926, o arcebispo Dom Irineu Jofilly retirou a corda do Círio, por acreditar que fosse incompatível com os preceitos da Igreja. A medida gerou polêmica, mas durou cinco anos até que, em 1931, com intervenção do então Governador Magalhães Barata, a corda voltou a fazer parte da procissão.

Segundo Silvio Figueiredo estes conflitos entre sagrado e o profano acompanham a festa até hoje por que o Círio tem como característica a relação sagrada presente a partir de um grande controle popular que se choca eternamente com o controle que a igreja pretende dar a festa, ou mesmo as diversas estruturas de controle. Exemplos disso podem ser observados em várias situações como, por exemplo, as pessoas se fantasiado para ir à procissão, o consumo de bebidas alcoólicas, o uso de músicas não religiosas, a identificação de uma série de promessas que são pagas de forma muito particulares. “Organizar uma coisa que é por sua própria característica desordenada é óbvio que produz conflitos, porém, muitas vezes estes são resolvidos numa negociação em um instante do sagrado, durante as procissões, durante as festas”, explica.

Os conflitos, no entanto, não contribuem de maneira alguma para que a festa perca força e nem o interesse dos fies, pelo contrário, tem sido inclusive, um importante meio de geração de renda para a cidade. Segundo dados da Companhia Paraense de Turismo-Paratur estima-se que, só em 2013, 77, 9 mil turistas deveram visitar Belém nesta época do ano gerando US$ 28,95 milhões em recursos. Este aspecto da festa é tão importante que ações de marketing de divulgação do evento têm estimulado a criação de várias versões do Círio em outras cidades, como Rio de Janeiro e em Brasília com visitas anuais da imagem peregrina de Belém a estes locais. Para o professor, esta expansão não é a priori negativa por que ocorre de forma paralela a festa maior. “Estas intervenções são paralelas por que o núcleo da festividade vai continuar sendo dominado por quem faz a festa, ou seja, do povo que está na rua em louvor a nossa senhora, por que eles têm certa astúcia, uma forma de reinterpretar os controles, as realizações mercantis e aproveita-la da melhor forma”, analisa.

 

Texto: Wanderson Cursino - CCDC/NAEA

Foto: Silvio Figueiredo

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