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Professora Edna Castro Professora Emérita da UFPA

Socióloga pela Universidade Federal do Pará, Edna Castro é umas das mais importantes cientistas da Amazônia e do Brasil. Sua trajetória prolífica demonstra sua fundamental participação em diversas ações e acontecimentos na história recente dessa região, uma atuação com características marcantes. Essa produção cientifica de vanguarda iniciou com seus estudos sobre as condições de trabalho nas empresas e indústrias da região, em Belém e Manaus, os grandes centros. Esse tema está presente desde a entrada de Edna no Curso Internacional de Formação de Especialistas em Áreas Amazônicas - FIPAM, curso que dá origem ao Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará, Núcleo onde atualmente é professora e que ajudou a consolidar como um dos principais Institutos do norte do Brasil. A temática será ainda esmiuçada e debatida densamente em seu mestrado e seu doutorado, na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris, França.

Não obstante lançar seu olhar meticuloso para as relações de trabalho na Amazônia, construindo importante pensamento sobre e com os trabalhadores, Edna avançará para novamente encontrar as populações mais vulneráveis ali presentes, como as comunidades tradicionais e quilombolas e seu livro com Rosa Acevedo “Os Negros do Trombetas” é um marco nas ciências sociais, valendo-se de categorias científicas até então não tão usadas como o conceito de territorialidade, além de evidenciar os recursos identitários e de memória social do grupo, bem como os conflitos sociais frente a empresas mineradoras. Essa trajetória resvalou obviamente no principal agente causador de transformações rápidas e profundas nas relações socioambientais da Amazônia, naquele momento o estado, a partir de políticas públicas controversas e com empresas públicas e instituições atuantes na exploração do que se convencionou chamar de Grandes Projetos, desenvolvimentistas, em diversas searas da exploração econômica do grande capital, na mineração, nas grandes obras infraestruturas como as hidrelétricas e sistemas viários. Esse estado era representado à época pela ditadura militar, regime que durou de 1964 a 1985, e atuava em parceria com grandes corporações internacionais franqueadas para exploração de, por exemplo, minério na Amazônia.

Interpelando esse poderoso agente social, Edna coordenaria e lançaria uma série de estudos, entre eles o livro “Industrialização e Grandes Projetos: Desorganização e Reorganização do Espaço”. Publicou ainda os importantes compêndios sobre desenvolvimento na Amazônia: “Faces do Trópico Úmido: Conceitos e Questões sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente”, “Energia na Amazônia: Vol. I e II”, e “Sociedade, território e conflitos: BR-163 em questão”. Retornaria ao tema das populações amazônicas em “No caminho de pedras de Abacatal: experiência social de grupos negros no Pará”, e entraria por novos meandros das transformações sociais da região, que vai se tornando cada vez mais urbana, em que pese o permanente ambiente de floresta, fortemente ameaçado pelo desmatamento. Assim surgem “Belém de Águas e Ilhas” e “Cidades na Floresta”, que tratam das cidades da região de maneira inédita, coletando estudos que percorrem o tema com olhares mais tradicionais e outros estudos mais inovadores para pensar as cidades em região tão ímpar.

As temáticas diversas encontradas pelos estudos e olhares de Edna demonstram sua principal preocupação: os desdobramentos do desenvolvimento em sociedades com características especificas, por isso mesmo recorre mais uma vez a pensamentos vanguardistas para olhar a Amazônia, como as teorias decoloniais tão necessárias atualmente para a América Latina e para o Brasil, sendo sua produção antecipadora desse debate.

Ainda trilhou os caminhos do audiovisual em produções cinematográficas de destaque e premiadas como os filmes “Maria das Castanhas” e “Fronteira Carajás”.

Em todos esses casos Edna demonstra a preocupação de nunca se acomodar nas suas análises do contexto social sobre o qual lança seu olhar de pesquisadora, introduzindo novas teorias e categorias científicas para a compreensão da Amazônia, e sabendo exatamente o seu lugar e a sua tarefa, sem demonstrar indiferença sobre as questões que realmente importam, e é exatamente isso que faz uma grande cientista, uma grande pesquisadora, a capacidade de entender o contexto, entender que os processos desenvolvimentistas nunca são técnicos, e sim políticos. Assim é possível definir que sua produção é incontornável para a solidificação de um pensamento crítico latino-americano e amazônico, que está em permanente construção, na sua produção de mais de mais de 230 artigos, livros e capítulos de livro.

Além de todos esses atributos ainda achou tempo para ser professora visitante da Universidade de Québec à Montreal, no Canadá, na Universidade de Brasília e na Université Le Havre, França. Coordenou o Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido, do NAEA, além de ter sido diretora do NAEA por longos períodos. Foi presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR) além de diretora na Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Ciências Sociais (ANPOCS), na Sociedade Brasileira de Sociologia (SBS) e na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Continua professora titular permanente do NAEA, atuando no mestrado e doutorado, tendo formado uma grande quantidade de pesquisadores e pesquisadoras, espalhadas pelo mundo. Quanto à Amazônia, os desastres continuam acontecendo, agora mais danosos, os projetos desenvolvimentistas continuam sua saga impactante, e a situação atual do Brasil é uma das mais críticas no que se refere à proteção do meio ambiente e das populações mais vulneráveis. Os índices de desmatamento são atualmente alarmantes, em que pese os avanços da primeira década do século XXI. Dessa forma seus problemas de investigação nunca deixaram de existir e seu pensamento se faz cada dia mais necessário.

O título de Professora Emérita foi definido na reunião do Conselho Universitário de Ensino, Pesquisa e Extensão (Consepe) da Universidade Federal do Pará (UFPA) de 23 de julho de 2020.

Silvio Lima Figueiredo

Julho de 2020

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