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Mapeamento Social na Amazônia

Seminário no Naea discutiu mapeamento social na Amazônia

Núcleo de Altos Estudos Amazônicos-Naea sediou nos dias 29 e 30 de abril o Seminário Parcial "Direitos Territoriais dos povos e comunidades tradicionais na Amazônia: contra sentidos do desmatamento e devastação ”.  O evento faz parte do projeto “Mapeamento Social como Instrumento de Gestão Territorial Contra o Desmatamento e a Devastação: Processo de Capacitação de Povos e Comunidades Tradicionais”, desenvolvido sob acoordenação do professor Dr. Alfredo Vagner da Universidade do Estado do Amazonas - UEA e da Professora Drª Rosa Elizabeth Acevedo, do Naea/UFPA.

O Seminário teve como objetivo maior fazer uma síntese e reflexão conjunta entre pesquisadores e agentes sociais,sobre as ações de intervenções econômicas e políticas e sobre as estratégias e sentidos das práticas desenvolvidas ao longo do projeto. Além de pesquisadores e colaboradores de vários estados amazônicos, estiveram presentes o jornalista e editor do Jornal Pessoal, Lúcio Flávio Pinto, representantes de movimentos afro religiosos, representantes de povos indígenas e representantes de várias povos tradicionais atendidos pelo projeto.

Segundo a Rosa Acevedo, o mapeamento social é um instrumento estratégico para que os povos tradicionais da Amazônia possam lutar contra o desmatamento dos recursos e pela garantia dos seus direitos. “O objetivo é fortalecer o conhecimento destas comunidades e povos tradicionais por meio de cursos e oficinas de formação. A ideia é que essas próprias comunidades possam elaborar informações densas sobre elas mesmas para que sirvam de instrumento de combate ao desmatamento e a devastação das florestas e na luta pela garantia dos seus direitos”, explica.

O professor e coordenador do Naea, DurbensMartins Nascimento, ao parabenizar os integrantes do projeto, ressaltou a importância de a Universidade se aliar à outras formas de conhecimento. “Para todos nós é importante que a Universidade expanda seu conhecimento para além dos seus limites e esse processo só acontece pelo reconhecimento de nossas limitações enquanto academia e da importância dos conhecimentos tradicionais para a sociedade. Por isso este projeto é muito importante, por que valoriza e fortalece o saber tradicional”, enfatizou.

Violação de Direitos e resistência– Ao longo de dois dias de seminário, seis mesas-redondas discutiram, entre outros temas, ações de combate ao desmatamento e devastação, violência e ações resistência. Foi uma oportunidade para que representantes de comunidades tradicionais compartilhassem suas experiências de luta contra a violação de direitos que vêm sofrendo.

Uma dessas experiências foi contada por Francisco Parede Lima, presidente da Associação dos Artesãos do Rio Jauaperi, do sul do estado de Roraima. Ele diz que a Associação foi criada em 2004 como uma forma de garantir direitos básicos como educação e saúde. No entanto, hoje, outros problemas vêm surgindo devido o agravamento de alguns conflitos socioambientais na região.

“Hoje nós temos muita dificuldade com a questão da pesca que é o nosso sustento. Os geleiros vão lá e tiram peixe em grande quantidade e isso prejudica a gente. E tem também os tartarugueiros que invadem nossos rios e não obedecem nosso acordo de pesca”, conta Francisco, chamando atenção para as ameaças de morte que alguns agentes da comunidade têm sofrido.

Francisco Parede, no entanto, ressalta que o projeto veio dar grande contribuição à essa luta pelos direitos da comunidade já que possibilitou aprofundar o conhecimento do território. "Mesmo com essas dificuldades, a gente tem coisa boa pra contar do que tem acontecido lá na nossa comunidade. Eu costumo dizer que essa cartografia que foi feita lá é nossa identidade por que agora nós podemos conhecer melhor o que é da nossa terra, as coisas que pertencem à gente", conta.

Cacique Payaré – Houve ainda, como parte da programação, a exibição de um vídeo e a leitura de uma carta em homenagem ao cacique Hõpryre Ronore Jopikti Payaré, do povo Gavião, falecido no final de março deste ano. Na ocasião a filha do cacique, Kátia Silene Akrkatejê falou do legado que seu pai deixou para os povos indígenas da região.

"Ele (Cacique Payaré) sempre falava que nós indígenas tínhamos muitas diferenças, mas mesmo nós, muitas vezes, não falando a mesma língua, mesmo que a gente tenha visões diferentes sobre muitas coisas, nós temos que ser unidos na luta, por que só unidos nós vamos conseguir buscar nossos direitos. E esses ensinamentos do meu pai que eu trago pra mim hoje, pra me estimular a continuar essa luta dele", conta emocionada Kátia Silene que, com a morte do pai, se tornou a primeira cacique mulher do povo Gavião.

Payaré foi um exemplo de resistência e luta para a garantia dos direitos dos povos indígenas. Há cerca de de 30 anos reivindica da Eletronorte o antigo território de seu povo, expropriado para a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. Chegou a ir a OEA e à ONU para denunciar a forma violenta com que o Brasil tratava os povos indígenas.

Mapeamento social – O projeto “Mapeamento Social como Instrumento de Gestão Territorial contra o desmatamento e devastação” é uma iniciativa financiada pelo Fundo Amazônia do Banco Nacional de Desenvolvimento - BNDES que busca fortalecer os usos das comunidades tradicionais dos recursos em todo o bioma amazônico. Iniciado em 2011, a meta do projeto é realizar o mapeamento social em 27 municípios de 09 estados da Amazônia legal até o final deste ano.

Para saber mais saber mais sobre o projeto acesse o site: http://novacartografiasocial.com/

 

Texto e Fotos: Wanderson Curcino, CCDC/Naea/UFPA

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