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Nova edição da Revista Novos Cadernos Naea

Já está disponível o mais recente número da Revista Novos Cadernos Naea.

Editorial.

Ao lançar este número de Novos Cadernos NAEA, é inevitável um balanço do que foi este ano de 2016 para a sociedade brasileira. Movimentos políticos de orientação conservadora reeditam um Golpe à Democracia e a deposição de um governo eleito. Ato seguido da aprovação, pelo Congresso Nacional, de leis e dispositivos de exceção implementados com grande velocidade. Vimos consagrar-se o desmonte contínuo de instituições, instrumentos legais e medidas democráticas consolidadas no país desde a promulgação da Constituição de 1988. Um golpe que se forjou à deriva da sociedade, em meio a tensões sociais e escândalos de corrupção, de apropriação privada do bem público e de violência consentida e naturalizada. Esses processos que conformam o Brasil contemporâneo, vazio de poder e de legitimidade institucional, impõem a todos um grande debate com o desafio de seu entendimento.

Os temas alinhados ao desenvolvimento permeiam boa parte dos artigos, constituindo a área de concentração desta revista. Este número traz artigos que vão do debate contemporâneo sobre territórios urbanos, rurais e étnicos a discussões sobre o Estado e suas políticas. Um deles, voltado à reflexão sobre o planejamento urbano, traz Aportes conceituais de referência ao Planejamento Metropolitano no Brasil contemporâneo. Os autores Ghissia Hauser, Helenizam Campos e Diogo Onofre Souza chamam a atenção para a reestruturação das cidades do final do século XX, marcadas por determinantes intraurbanos e interurbanos. Nessa perspectiva, impõem-se uma revisão do conceito de região, pensar novas centralidades urbanas e a conjuntura regional/urbana no Brasil. Na linha do debate sobre a questão regional e a multiplicidade de composições sociais e étnicas do urbano, tomando a Amazônia continental como exemplo, o trabalho dos historiadores colombianos Yohana Pantevis e Germán Palacio, no texto Ciudades amazónicas intermedias, pesca y fronteras, ao analisar a formação da cidade de Letícia, na fronteira da Colômbia com o Brasil, revelam como o desenvolvimento de atividades comerciais permitiram o surgimento e a consolidação do setor privado como um fator-chave de funcionamento do Estado e de crescimento da cidade. Concluem que a relação entre a cidade e a pesca pode ser um elemento-chave para a análise das pequenas e médias cidades do médio Amazonas. A transformação da “fronteira” em “região” implica o desenvolvimento de cidades capitais, como é o caso de Leticia. Certamente o aporte teórico sobre os atores sociais, os agentes econômicos, elucida a compreensão das dinâmicas nessas áreas de fronteira. Mas também no conjunto de atividades dos países e das suas relações no âmbito de organizações como o Mercosul. Em Micros, pequenas e médias empresas: atores importantes na consolidação do espaço regional do MERCOSUL? Jacqueline Haffner, Leandro dos Santos e Nadia Menezes, ao responder se as MPMEs constituem atores relevantes na consolidação do espaço regional conformado pelas economias mercosulinas, enfatizam a sua relevância para o crescimento econômico. Ainda na linha do espaço regional, no artigo Ciudadanía imaginada y presupuesto participativo en los pueblos indígenas de la Selva Central del Perú, de Luis Calcina Romero e William Santos de Assis, refletem sobre a relação entre os processos de participação e o exercício de cidadania nos povoados indígenas. Analisam a configuração de uma cidadania imaginada na Selva Central peruana. Concluem que o poder que se exerce sobre eles encobre a realidade, não lhes permitindo perceber os processos de inclusão e os parâmetros da colonialidade reproduzida.

Este número de Novos Cadernos NAEA traz uma outra dimensão do urbano, relacionada aos processos de intervenção de políticas nacionais. Um artigo trata de tema bastante discutido e polemizado no Brasil, que é o do Transporte Urbano e Transporte Informal. O autor, Hernán Mamani, ao se referir a tensões, conflitos e protestos populares relativos ao transporte coletivo nas cidades brasileiras, mostra a ineficiência das políticas e do planejamento voltados à mobilidade urbana. Trabalho e trabalhadores têm sido temas recorrentea nos debates sobre o desenvolvimento, como prova o intenso debate em torno de marginalidade, inclusão, exclusão, violência, trabalho escravo e criminalização no âmbito do trabalho. O artigo sobre trabalhadores metalúrgicos de Criciúma e Sul Catarinense, de Gilvan França e João Henrique Zanelatto, analisa a economia que, por várias décadas, repousou sobre a exploração do carvão mineral, passando, mais recentemente, a uma diversificação no setor metalúrgico, que se estende a vários municípios do Sul Catarinense com efeitos sobre o trabalho, os trabalhadores e a organização sindical. A cidade é revisitada, no advento da modernidade, mas agora do ponto de vista da arte, sobremodo da literatura, e será evidenciado na análise da obra poética de Mário Quintana, no texto de Priscila Alves e Elis Miranda. Embora em direção teórica diferente, a releitura da cidade de Belém a partir das categorias moralidade e modernidade, explora lugares escondidos na obra do naturalista Henry Bates. As cidades pequenas do entorno de Belém experimentam movimentos culturais e a reafirmação histórica de práticas sociais tradicionais. É o tema do texto de Amarildo Ferreira Júnior, Larissa do Nascimento e Sílvio Figueiredo sobre os papéis desempenhados por mulheres e seus processos criativos na produção de linhas de brinquedos de miriti, entre a construção do gênero feminino e a divisão sexual do trabalho. A pesca na Amazônia é parte constitutiva da unidade familiar, e encontra-se sob ameaça de impactos sobre os cursos d’água em função de grandes projetos, como é o caso da abundância de pescado antes da construção da Hidrelétrica de Santo Antônio, no rio Madeira, em Rondônia, em comunidades ribeirinhas hoje a jusante, como mostra o artigo de Carolina Dória, Luiz Machado Neto e Suelen de Souza. Os resultados demostraram a importância da pesca familiar, com grande produção para consumo e comercialização. As preferencias por tipo de pescado também faz parte do processo de trabalho e da escolha de técnicas de pesca. No artigo Preferencias e tabus alimentares relacionados ao consumo de pescado, tendo como unidade de análise Santarém no Pará, Tony Marcos Braga, Adrielly da Silva e George Rebêlo registram a utilização de recursos pesqueiros pelos moradores, analisando os aspectos associados à incrementação de seu consumo. Os estudos sobre grandes obras de infra-estrutura na Amazônia estão, em boa parte, relacionados a políticas nacionais e a projetos vindos de novas frentes de ocupação ilegal da terra, reproduzindo, de um lado, o latifúndio improdutivo e, de outro, a expulsão de antigos ocupantes de suas terras. Dois artigos examinam essas questões. O primeiro de Armando Tafner e Fábio Silva, trata da colonização autoritária imposta por Ariosto da Riva, origem da cidade de Alta Floresta, em Mato Grosso. O segundo, de Sérgio Corrêa, sobre a construção da hidrelétrica de Belo Monte como modelo de desenvolvimento marcado por contradições, conflitos e violência. Novos Cadernos NAEA publica ainda, neste número, três Resenhas com temas relacionados a processos de desenvolvimento.

 Prof. Dra. Edna Ramos de Castro -  Editora Científica

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