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Maria Ernestina (a quarta a partir da esquerda) e banca de doutorado

Aluna indígena estrangeira defende tese de doutorado no Naea.

Na manhã última segunda-feira, dia 16 de maio de 2016, Maria Ernestina Garreta Chindoy, aluna de doutorado do Naea, defendeu a tese  intitulada "Mandatos  Nacionales y Realidades Locales: Análisis de la Política del Agua en la Frontera Amazónica. Orientada pela  Profª Edna Castro, coordenadora do grupo de pesquisa Estado, Trabalho, Território e Globalização na Amazônia - GETTAM,  a tese foi elaborada dentro de uma linha de pesquisa do grupo com o apoio da CAPES. 

Maria Ernestina é a primeira indígena estrangeira a receber o título de doutorado no Núcleo de Altos Estudos Amazônicos. De nacionalidade Colombiana, vive na região Sul da Amazônia: Mocoa Punto Manjo, localizada na fronteira do Equador e Colômbia. A discente é descendente de Qechuá. Assim, sua primeira língua é Inga e a segunda o espanhol. Maria Enertina Garreta Chindoy possui graduação em Direito, especialização em Finanças e Controle Público e mestrado em Gestão Ambiental. Durante a defesa, os professores da banca examinadora ressaltavam o quão emocionante era aquele momento, não só por Maria Ernestina obter tal título inédito mas também por sua particular história de vida. A própria orientadora, a professora Edna Castro,  comentou sobre a experiência de poder trabalhar com Maria e a satisfação de vê-la evoluindo. 

Naea - "Escolhi o Naea para fazer meu doutorado porque posso estudar a Amazônia, esse foi o ponto fundamental. Pela universidade respirar, estar e falar sobre a Amazônia", disse Maria bastante feliz e apreensiva enquanto a banca se reunia para avaliar a defesa e anunciar o resultado. Maria também comentou sobre o significado daquele momento para ela. "E esse momento é muito forte para mim e me causa tensão pois eles conhecem meus sacrifícios e meu trabalho". Maria Ernestina concedeu a seguinte entrevista à Coordernação de Comunicação e Difusão Científica do Naea:

 

1. Como é ser aluna do doutorado do PPGDSTU (Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido)?

Cheguei aqui em 2011,quando cheguei aqui como estava falando para mim foi muito difícil essa mudança cultural, foi muito difícil porque aqui a língua é portuguesa, acreditava que entre o espanhol e o português era uma língua muito perto muito compreensível. Mas, chegando aqui foi outra. Porque a fala é muito diferente, se falou aqui, por exemplo, “diferente” é espanhol e tem que falar “diferente” é outra coisa. Aí então eu não compreendia como é tudo isso essa mudança cultural da língua. Acreditei que era muito fácil, não era assim. Foi muito difícil passei muita dificuldades, quando cheguei aqui a primeira aula foi em português com a professora Nívea Ravena e aí ela falava muito rápido a aula , eu não entendi nada. Primeiro dia. Então, falei com a professora que não era possível te compreender porque a professora pedi participação, tem que apresentar trabalhos para senhora. E também ...eu gosto de participar eu gosto  de falar. E aí não é possível e melhor eu vou estudar neste dia. “Não fique aqui, fique aqui não pode sair daqui. Tem que ficar. E  você pode”. Ela falava sempre assim. Ela foi muito importante para mim neste primeiro dia de aula. Por que quando cheguei aí foi assim como um choque, um choque muito difícil. Mas, a compreensão dela foi muito importante para mim para continuar. Primeiro foi assim ela (Professora Nívea Ravena)estava como coordenadora e aí ela ficou muito motivada que estava chegando uma pessoa, só que ela não sabia que eu era indígena. Ela não sabia, ninguém sabia que eu era indígena. Eu sempre maquiada. Não sabia. E aí depois eu falava. Eu sou indígena, eu sou indígena, ninguém dava importância, por isso sabia que eu tinha que responder igual que os demais (colegas). Ela motivou neste sentido. Logo, para apresentar a minha proposta para entregar ao colegiado aí foi muito importante para mim o professor Saint - Clair. Porque a segunda aula que recebi foi com ele professor Saint - Clair. E aí o professor foi muito exigente, sim, mas muito importante o que ele falava. Eu gostava muito que ele se aproximava da região, porque ele estava falando sobre urbanismo. Ele fala assim: como começa uma urbanização. Eu gostei da aula dele só que ele era muito exigente tinha que fazer muitas leituras, tinha que falar também.  Ele falava: “Maria fala em espanhol”. Ele ajudou aí também. “Maria fala em espanhol”. Eles (colegas de classe) também gostavam que eu falasse em espanhol, porque os meninos que estavam aí tinham curiosidade de aprender o espanhol para eles era importante ,então nesse processo contribuir. Contribuir um pouquinho com o espanhol. Eles também contribuíram comigo com o portunhol, para aprender o portunhol era espanhol e português, eles falavam assim “Fala Maria assim: Hoje tá muito quente”. Aí eu falava “Sim é verdade muito quente” (...) Sempre muito difícil. Todas as aulas têm exigências tem que trabalhar muito tem que fazer muito paper, tem que publicar, tem que escrever, tem que participar as aulas aqui são muito dinâmicas. Tem que ser dinâmico nas aulas, tem que falar tem que participar, não tem que ter vergonha. Aí perdi toda vergonha. Tinha que falar como seja. Tem que falar porque aí estava a participação, os professores também estão olhando quem está participando, quem não está participando. Tem que participar. E aí é que essas são culturas. A cultura fica numa caixa pra lá guardada um pouquinho e aqui tem que passar a uma dinâmica de investigação. De tomar aula de ciências, que começam a orientar que tem que fazer ciência, também a escrita.

 

2. Do que trata a tese “Mandatos Nacionales y Realidades Locales: Analísis dela Política Del Agua em La Frontera Amazónica”?

Mandatos é a norma a legislação nacional. E aí então, que fiz aí. Fiz uma análise da norma nacional da água da política da água a nível nacional.  É uma norma que tem aqui (Brasil) que é a lei da água 9433/97, também aí estudei a constituição nacional de 1988,aí estudei isso também para fazer a comparação com isso, que estrutura tem essa norma tudo isso. Logo, primeiro ter o trabalho de fazer a análise das normas da água. Norma geral atual vigente, não antiga e sim vigente. Norma atual. Então, fiz uma comparação e análise deles. Análise, fiz muita análise, sobre isso. Foi aí muito importante trazer a teoria de Pierre Bourdieu, trabalhei com ele as teorias dele. Foi muito difícil também. Compreender aí Bourdieu passei muito tempo. E primeiro para compreender ele (Bourdieu) um ano, buscando livros, lendo muito, compreender a ele não é fácil, então viajei para Universidade de Campinas em São Paulo e aí eles tem uma universidade uma biblioteca muito legal, muito grande e fiquei até dez, onze da noite estudando Bourdieu. Tudo de Bourdieu, Bourdieu. (...) Só queria conhecer outras coisas, encontrei livros de Bourdieu em espanhol, Só que aqui não tinha para compreender melhor para mim foi muito importante encontrar (livros) em espanhol, em português para mim foi muito difícil e não compreendia nada do que ele falava. E então, viajei para lá e encontrei muito livro de Bourdieu em espanhol, para poder entender e também para fazer essa relação entre a política pública da água com a teoria de Bourdieu. Porque aqui estou falando que estou fazendo analise da política da água. Ainda estou na primeira parte, parte teórica, então aí foi muito importante compreender Bourdieu em primeiro lugar muitos livros e livros.

“Realidades Locales” primeiro foi uma análise da política com a norma com tudo, com Bourdieu com a teoria dele que ele fala muito de campo, hábitos, fala de campo político, fala sobre estado, sociedades. E tem que fazer aí uma relação entre sociedade e estado. E então, quando estou falado da política pública já estou falando do estado e aí ele (Bourdieu) explica muito bem sobre essa teoria. E foi por isso que trabalhamos aí com a professora Edna que foi minha orientadora. E então, depois de trabalhar tudo esse processo de teorização que não é fácil. Levei um ano trabalhando, tem que ter muita disciplina. Disciplina sempre. Não interromper (...) Continuar sempre.

Primeiro assisti aulas, depois são muitas aulas, ficamos um ano de aula uma correria e todo tempo, depois de um ano eu fiz um trabalho exploratório para fazer a proposta projeto tem que fazer uma qualificação de projeto de tese, para fazer isso novamente tem que ir viajar e fazer trabalho de campo. Quando comecei a fazer a proposta uma proposta com seis países para trabalhar esse tema de “Mandatos Nacionales y Realidades Locales: Analísis de la Política Del Agua em la Frontera Amazónica” com seis países que era: Bolívia, Perú, Equador, Colômbia, Brasil e Venezuela para qualificação. Isso foi quando comecei, depois nossa! Muito trabalho viajei esses seis países e viajei para Bolívia estava em Santa Cruz, cheguei aí e fiz trabalho de campo exploratório e depois viajei por terra e tudo, cheguei em Titicaca no Perú, cheguei lá e também muito bonito lá, muito legal, mas muito trabalho também. Todas fronteiras Amazônicas. Em Peru visitei Iquito (região pequena fronteira com Colômbia), depois Equador, também nas cidades principais Quito. Assim viajei.  Toda pesquisa exploratória para concentrar uma parte. Tinha que fazer uma pesquisa exploratória para conhecer se é possível fazer esse trabalho com seis países. Voltei, viajei tudo, foi até Venezuela e estive em Porto Haja Cucho é um lugar Amazônico de Venezuela, depois de lá voltei para Manaus e cheguei até Manaus/ Amazonas e tudo isso tem estrada para chegar e tudo isso caminhei. E como indígenas caminhamos todo tempo pelo mato e é fácil para mim, caminhei tudo isso, tudo por estrada. Muito legal porque conhece muito é muito legal conhecimento que recebes é muito legal. Depois cheguei aqui e já fiz o projeto para qualificação e Ah! percorri seis países e agora vou fazer a qualificação. E cheguei aí.  E na qualificação estava professor Vidal, professora Nívea e a professora Edna. Então, o professor Vidal recomendou: “Olha Maria tudo está muito legal viajou muito conheceu muito, mas é muito trabalho e se você vai fazer entrevista você tem que fazer 250 transcrições. E aí vai correr o perigo de que não vai consegui fazer uma tese, senão um informe técnico. Ele recomendou isso. “Não tem que fazer isso”, ele falou assim: “Esqueça tudo esse trabalho e que fique pra lá e concentrem em três, no máximo três países”. E então escolhi só dois já por toda recomendações que deram na banca foi muito bacana, muito legal e então dois países Colômbia e Brasil. Colômbia que é meu país e que tá na fronteira e Brasil. Escolhi duas cidades em Colômbia – Leticia e aqui em Brasil - Tabatinga na Amazônia. Elas são vizinhas, cidades (Leticia e Tabatinga) é fronteira, como o título aqui é fronteira amazônica, então é por isso. Então, Vou vender o título. O título está falando realidades locales, é por isso que realidades locales, depois fiz toda essa análise da teorização e política pública com Bourdieu com a teoria de campo, hábitos e campo político e ele fala de estados tudo isso que falei, aí vou chegar a olhar o que está acontecendo na realidade dessa fronteira com a política pública da água. E assim, foi assim que trabalhei.

 

3-Que teóricos fundamentam sua tese?

Bourdieu é o principal e trabalhei com ele. Tem outros sim, mas ele é o principal Bourdieu para tudo. Fui para lá (São Paulo) comprei livros de Bourdieu. Tudo que tinha que ver com Bourdieu estudei muito. Tenho uma coleção de Bourdieu e vou deixar também para universidade aqui, porque não tenho que levar tudo. Fiz uma coleção, uma biblioteca de Bourdieu porque também não só estudei sobre o estado ele entende sobre o poder simbólico. E porque aí dentro dessa teorização tem umas categorias muito importantes que fala sobre poder, poder simbólico, a força simbólica, violência simbólica e são várias. (...) Fala uma norma é um poder simbólico quando fala da lei da água, então aí tem um poder simbólico, aí tinha que compreender tudo isso para escrever. E hoje às vezes me sinto mais tranquila, sinto que aprendi muito, mas falta muito, só que agora dei um passo, para mim seria mais difícil adiante fazer outras coisas porque o começo foi muito difícil para mim o começo eu chorava, eu dizia: “Nossa preferia ter ficado no mato mais tranquilo do que está aqui, também muito quente. Bastante. Olhava muito que as pessoas olhavam para mim que sou de outra raça de outra cultura, então estavam curiosos que falava. E também senti como essa a pressão, tem que você está preparado para participar, porque tem que falar bem.  E também sentia isso. Sentia isso. E também foi quando tinha que participar que seja algo importante, porque os professores as vezes o professor falava: “Olha Maria, hoje o que  vai falar?,”por exemplo,“O que vai falar”, sempre sentia como uma obrigação, que tenho que está preparada para sempre. “O que vai falar” sempre era Maria, sempre falava em primeiro., porque se disser Fala você aí, ficava com um choque, aí a produção não é a mesma. Então, se falasse professor eu quero, então o professor sabia que eu estava preparada e eu ia falar. No fim, eu queria sempre primeiro depois, eu fazia assim também, tinha que ter estratégia.

 

4. Qual foi a problemática levantada em seu trabalho?

Primeira problemática era o título que estava falando sobre “Mandatos Nacionales y Realidades Locales” começa a explorar e sai daí umas questões relativas a política pública da água ligada com o Abastecimento de água potável na fronteira Amazônica que é (Leticia e Tabatinga). E então, esse problema de abastecimento de água na fronteira amazônica tinha que olhar tudo isso que estava acontecendo com a realidade da sociedade. E chegar aí. Isso é o mais importante. A relação que existe com a sociedade. Observar quais são os efeitos das políticas públicas da água no abastecimento de água potável na fronteira amazônica. Como contribui o não na diminuição das desigualdades e olhar isso também, se existe políticas públicas da água e de que maneira contribuem a diminuir a desigualdades sociais. Observar como as políticas públicas contribuem nas desigualdades sociais, de que maneira contribuem ou não. Tem que olhar isso. Identificar as ações estratégicas que fazem a sociedades para abastecer-se de água potável, que estratégias e ações têm a sociedade para resolver o problema de água potável nas duas cidades (Leticia e Tabatinga). E também identificar se tem organizações que procurem para defesa de consumo de água potável, consumo humano, se fazem reclamações se existem algumas organizações ou associações comunitárias.

Textos: Ana Laura e Lene Carvalho

Foto: Ana Laura

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