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As manifestações e o papel do Estado

As jornadas de junho e a ausência de ação do Estado. 

Em junho do ano passado, quando milhares de pessoas em todo o Brasil saíram às ruas para protestar por melhor educação, transporte de qualidade, segurança pública, menos corrupção na política, e uma infinidade de outras pautas, colocava-se em questão, entre tantas outras coisas, até que ponto o Estado teria capacidade de suprir as necessidades da sociedade? Um ano após as jornadas de julho de 2013, o livro “Um novo Planejamento para um novo Brasil?”, organizado pela professora Edna Castro, do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (Naea) da Universidade Federal do Pará e Ester Limonad, do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense, retoma essa questão, não necessariamente para respondê-la definitivamente, mas para aprofundá-la. Para tanto, segundo Edna Castro, é preciso mudar a forma como entendemos o próprio Estado.

 “Há uma percepção errada de que as ações do Estado atingem de maneira homogênea a totalidade da sociedade, mas na realidade essas ações nem tem conseguido alcançar as demandas reais da sociedade.  De uma certa forma as lutas que ocorreram no mês de junho, julho e que se prolongam no Brasil, mostram uma contestação da sociedade em relação ao Estado. É um processo de insurgência em relação ao discurso arrumadinho que se tem sobre as políticas públicas como, por exemplo, na política de transporte, na política de educação, na política de desigualdade social. Então na realidade, as jornadas de junho vieram escancarar a falta de ação do Estado justamente para atender essas demandas sociais,” explica Edna Castro.

 Neste caso, nem mesmo os rotulados “atos de vandalismo” estão fora dessa lógica. Para a professora, nesses atos havia elementos que evidenciavam claramente este tipo de comportamento de confronto com as ações dos estados. Embora fossem extrapolações, ela acredita que estas extrapolações tinha uma finalidade mais clara, uma vez que quase todos atos violência eram direcionadas para símbolos da ineficiência das políticas públicas como paradas de ônibus, cabines de pedágio, ônibus prédios públicos. Era uma forma violenta de dizer que se discordava com o que vinha sendo feito.

 “Nos protestos, foram também alvos alguns símbolos econômicos como lojas, bancos, caixas eletrônicos, atos que traziam uma percepção de que esse movimento foi um movimento de classe média, mas que teve adesão de camadas populares que questionavam a qualidade das políticas e o planejamento que estava sendo colocado em questão”, acrescenta.

Estado e sociedade - O livro, fruto de um Seminário realizado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR), ocorrido no Recife em julho de 2013, reúne capítulos de vários intelectuais para discutir essas e outras questões. Num destes capítulos Edna Castro levanta algumas ideias sobre esse distanciamento entre as ações do Estado e a sociedade. Para ela o problema é que o a sociedade é a “margem” do Estado, na qual ele não consegue alcançar com suas ações por uma series de contradições com interesses econômicos que não privilegiam o social.

 “Eu tento fazer em um dos capítulos do livro uma reflexão sobre Estado e suas margens para entender os processos de contradição e formação do estado brasileiro, e como o estado se confronta com situações limites da sua incapacidade, da sua não compreensão do sentido da nação brasileira, de povo brasileiro, o sentimento republicano. Estes são elementos que escapam ao planejamento e ação do Estado por que o estado não entende o que os jovens na periferia querem, o que eles querem como educação ou como transporte, o que eles querem como lazer e como cultura”

A professora Edna Castro conclui que tanto o Estado quanto as políticas de planejamento não estão próximas à sociedade. “É como se o Estado e o planejamento gravitassem em orbitas fora da realidade, ou seja, ele não chega as margens da sociedade”.

Wanderson Cursino – CCDC/Naea

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